Drag

Construção deixou de ser um mundo só de homens


Data: 20/02/2026
O Jornal Económico

Atualmente parte do estaleiro está dentro de fábricas, onde a robotização abriu espaço a arquitetas, engenheiras e técnicas. Grupo Casais criou empresa em 2019. Emprega 72 trabalhadores, dos quais 25 são mulheres. “Na engenharia já predominam em relação aos homens”, refere o CEO, António Carlos Rodrigues.

Que imagem guarda na memória de um estaleiro de construção? Homens cobertos de pó, andaimes, tijolos, camiões e ruído. Muito ruído. E homens, essencialmente. Até aqui, os estaleiros eram território 100% masculino. Mas a indústria está a mudar. Uma parte significativa dos edifícios são hoje construídos em pré-fabricado e a robotização acelerou ainda mais os processos. E parte do estaleiro está dentro de fábricas, onde a robotização abriu espaço a arquitetas, engenheiras e técnicas. Além disso, o trabalho em fábrica tem outra vantagem para as mulheres: evita viajar de cidade em cidade.

Uma das empresas portuguesas que tem vindo a apostar na valorização do sexo feminino é o Grupo Casais, que em 2019 criou a Blufab, uma unidade de construção que aposta em soluções mais eficientes e com menos consumo de recursos para combater a escassez de matérias-primas e de mão de obra do setor. Dos atuais 72 trabalhadores, 25 são mulheres, distribuídas por áreas técnicas/back office (13) e em fábrica (12).

“Contratamos pessoas para trabalhos qualificados e existem cada vez mais mulheres com cursos e formação superior. Por exemplo, na engenharia já predominam em relação aos homens”, afirma ao Jornal Económico (JE) António Carlos Rodrigues, presidente do Grupo Casais.

Os dados do primeiro trimestre de 2025 do Instituto Nacional de Estatística (INE), corroboram a opinião do engenheiro, já que dos 2,55 milhões de mulheres empregadas em Portugal, 41% completaram o ensino superior, 32% o ensino secundário ou pós-secundário, mas 27% continuam a deter no máximo o 9º ano de escolaridade.

Ainda assim, os níveis de habilitação do sexo feminino são superiores aos dos homens empregados, dado que apenas 28% completaram o ensino superior e 37% no máximo o 9º ano de escolaridade. E se no caso dos homens a escolha para o trabalho na construção pode recair muitas vezes na parte física, no caso das mulheres a componente emocional é um dos principais fatores.

“Temos hoje uma grande necessidade de aumentar a produtividade pela falta de mão de obra, e ao nível do trabalho qualificado homens e mulheres jogam de igual para igual”, salienta António Carlos Rodrigues.

Por outro lado, toda a evolução que tem existido no setor da construção, nomeadamente ao nível da robótica, mas também da Inteligência Artificial (IA), dá às mulheres a possibilidade de ficarem em teletrabalho. Uma opção que se acentuou no pós-pandemia.

No primeiro trimestre de 2025 havia 550 mil mulheres em teletrabalho (21,6% das mulheres empregadas), 37% das quais alguns dias por semana em várias modalidades, 26% fora do horário de trabalho, 24% das quais sempre e 13% pontualmente.

“Setor enfrenta défice de recursos humanos”
Outra das empresas que aposta na evolução tecnológica é a Ownest, promotora imobiliária portuguesa que privilegia o uso da tecnologia LSF (Light Steel Framing), e já tem em comercialização o seu primeiro projeto construído através desta ferramenta.
O Fountain by Ownest, em Vialonga, é uma moradia composta por quatro pisos que representa um investimento próximo de um milhão de euros.

“Portugal sofre de um grave problema de déficit habitacional e o LSF vem corresponder a essas expectativas pela sua rapidez de implementação. Conseguimos encurtar [o tempo] em cerca de 50%, face àquilo que é uma casa tradicional, que demora, normalmente, 12 a 18 meses. Com o LSF, conseguimos responder em seis a oito meses”, explicou em entrevista ao JE Roberto Teixeira, CEO da Ownest.

Com uma duração de 100 anos, este material já é utilizado em mais de metade dos Estados Unidos, mas, na Europa, ainda tem de lidar com a questão cultural, apesar de o CEO assumir que há cada vez mais fornecedores no país, pelo facto de as construtoras estarem a implementá-lo nos seus empreendimentos.

De resto, um dos segmentos que mais tem crescido nos últimos dez anos é o da construção metálica. Segundo dados da Associação Portuguesa de Construção Metálica e Mista (CMM), este segmento é atualmente responsável por 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2024, valia 6,9 mil milhões de euros, com 41 mil postos de trabalho diretos, sendo responsável por 3,3% das exportações, o que corresponde a 2,9 mil milhões de euros.